9.9.18

Será que é amor? - Capítulo 69


Débora, ainda sem jeito de vê-la ali, apenas sorriu e retribuiu o cumprimento.
- Oi! - disse já sendo abraçada pela mulher.
- Quanto tempo! - disse Débora retribuindo o abraço ainda sem jeito.
- Bastante. Nos esbarramos hoje cedo e fiquei na dúvida se era você, mas te vendo aqui, impossível não ter certeza. Como você está linda! - afirmou a moça sorridente.
Débora por um momento ficou bastante sem graça, não sabia o que dizer.
Sua ex de volta e agindo como se da última vez que se viram não tivesse acontecido uma das suas piores e maiores brigas. Coisa que Débora odiava relembrar, mas por outro lado já fazia tanto tempo que não teria o porquê de remoer o passado. “O passado, no passado ficou!” mentalizava.
- Obrigada. Você também está ótima. - dizia sorrindo.
- Eu fiquei na dúvida se era você, mas agora vendo-a aqui não tem como errar. – riram juntas. 
- Quer sentar? - convidou a moça.
Débora ficou indecisa se deveria aceitar ou não, visto que havia ido com seu primo que a avistava de longe e pôde entender a situação. Mesmo com um pouco de receio, aceitou. As duas se sentaram em uma mesa fora do bar. Era mais calmo e silencioso, não havia necessidade de conversar aos gritos.
- Quanto tempo! - disse ela completamente sorridente.
- Muito tempo. Mas como você está? Faz tempo que voltou para cá? - perguntou Débora curiosa e ao mesmo tempo hesitante com toda aquela situação.
A mulher acenava para o garçom e assim que ele chegou pediu dois uísques, sabia que era uma das bebidas favoritas de Débora.
- Não! Só um... Eu não estou mais bebendo. - exclamou dirigindo-se ao garçom.
- Sério? Tudo bem! Não vou insistir. - sorrindo voltou a olhar para Débora.
Assim que o garçom se foi, houve um breve silêncio entre as duas, algumas trocas de olhares que Débora tentava esquivar.
- Respondendo à sua pergunta: estou muitíssimo bem! Voltei já faz alguns anos. Infelizmente a saudade apertou e eu particularmente amo esse país. - falava sorridente.
Débora sorriu em resposta e em seguida continuou.
- Realmente nosso país é maravilhoso apesar dos diversos problemas. Está aí uma coisa que eu não teria coragem: morar definitivamente em outro país.
- Nada mudou, você e seus medos. - falou enquanto bebia um copo d' água e a fitava com os olhos.
- Bom, muitas coisas mudaram... - sorriu timidamente.
- Está namorando? – perguntou atenta.
- Sim. Namorando e completamente feliz. - afirmou Débora. Em seguida a moça riu.
- O que foi? –questionou sem entender muito bem sua atitude.
- É que não  foi isso que escutei por aqui. Você sabe, as notícias correm.
- E como sei... - mexeu suavemente o copo analisando o que havia escutado
 - mas no final das contas ninguém sabe o que realmente acontece. Só especulam e falam.
- Devo concordar com você.
As duas se entreolharam e o garçom finalmente chegou com a bebida. Débora continuou com sua água enquanto sua ex bebia uísque.
- Mas me fala, não sentiu saudades de mim? - perguntou enquanto pegava o copo despretensiosamente.
Débora realmente não entendeu onde ela queria chegar com aquela pergunta.
- Como assim?
- Não me telefonou... Não atendia minhas ligações... Sumiu! Você sumiu da minha vida sem nem dizer tchau.
Débora até que tentou não discutir sobre o passado, mas não deu, revidou as afirmações sem nem pensar duas vezes.
- Não precisei dar tchau, pois você fez isso por nós duas não é mesmo? Lembra-se de quando eu implorei para que ficasse e você simplesmente foi sem olhar para trás? Pois então, aquela foi a nossa despedida. - despejou na mesa acarretando uma troca de olhares intensos e uma fala completamente carregada de mágoas.
- Eu sei. Desculpe - pegou em sua mão, fazendo que ela imediatamente se desvencilhasse.
O silêncio se instaurou ao se olharem com firmeza, até que a mulher interrompeu com uma pergunta não muito agradável para Débora.
- Você ainda não me perdoou não é mesmo?
Débora fitou-a com os olhos semicerrados e preferiu não responder àquela pergunta. Logo tratou de desviar o assunto.
- Você soube que meu pai morreu?
- Sim. Meus pêsames. Não toquei no assunto antes por saber que não gosta de falar sobre mortes, doenças, despedidas e quaisquer coisas do gênero.
- Eu deveria te agradecer por isso?
- Não, mas também não precisa ficar arisca comigo.
Débora respirou fundo, sabia que ela tinha razão. Já havia tempo que ela tinha deixado a adolescência. Não tinha o porquê de alimentar tal sentimento.
- Você tem razão. Quais as suas novidades?
- Me formei em administração e agora estou abrindo um negócio em parceria com papai.
- E quase ia esquecendo de algo não menos importante, fiquei noiva. - falou mostrando o anel para Débora que nesse instante ficou apreensiva.
Encarando o anel, Débora sorriu não conseguindo disfarçar a tensão.
- Ela é daqui. Vamos nos casar ano que vem e se tudo der certo, iremos engravidar. Você sabe, sempre foi meu sonho ser mãe.
Após escutar tais palavras vindo de sua ex, Débora sentiu-se agoniada. Não poderia mais se calar diante de tudo que havia acontecido como se nada tivesse acontecido.
- Então você deixou de ser uma irresponsável e agora realmente quer ter filhos? - perguntou com um ar irônico.
A moça respirou fundo e a encarou.
- Por que? - perguntou.
- Por que o que?
- Por que está me tratando assim?
Débora engoliu a seco. Por mais que quisesse explanar tudo o que havia acontecido com ela no passado optou por não dizer nada. Se ela falasse qualquer coisa naquela mesa iria trazer de volta tudo que já havia acontecido e o laço que poderia vir a ter com sua ex estaria perdido. E isso não estava em seus planos.
- Não importa. Já está na minha hora. - falou olhando para o relógio.
- Eu sei que é alguma coisa. Só tenho que saber o que é.
- Não é nada. Apenas mágoa do passado. - tentou amenizar a situação. Em seguida Débora fora para o banheiro. A mulher deixou a conta paga encima da mesa e a seguiu.
- Espera! - falou segurando em seu braço. - Me fala! - insistiu a moça.
Débora encarou-a rapidamente ao ouvir, por coincidência, seu primo chamando-a de longe.
- Tenho que ir. Foi um prazer te rever. - falou saindo em direção ao seu primo.
Dessa vez, ela não foi seguida. Débora estava aliviada. Vê-la ali depois de tanto tempo insistindo para que contasse o que havia acontecido de certa forma mexeu com seu raciocínio, coisa que ela jamais queria ou pensava em fazer, mas por algum motivo fez.
- Você está bem? - perguntou o rapaz.
- Sim. Só quero ir para o aeroporto.
Débora optou por não comentar sobre o que havia conversado com sua ex. Os dois se despediram e logo estavam indo em direção ao aeroporto, até que o celular de Débora tocou. Ao ver que era sua mãe optou por não atender. Minutos depois o celular do seu primo também tocou, Débora praticamente implorou para que ele não atendesse e depois de muita insistência ele também não atendeu o celular.
- Não acho que o que você esteja fazendo é certo. - comentou o rapaz.
- Tudo bem. Eu não sou de fazer muitas coisas certas mesmo.
- Não quer falar sobre nada?
- Só quero chegar em casa. - finalizou Débora pensativa.
Aquele dia tinha sido bastante diferente do comum. Não pior que os outros dias, mas inusitado e cheio de lembranças. Ela só queria chegar em casa e encontrar Carol, um pouco de paz depois de tudo era o que precisava.
Caroline ao desligar o celular devolveu de imediato para o lugar onde estava. A casa estava silenciosa, então resolveu desacumular os livros da prateleira. Mas ao mexer entre suas coisas se deparou com o livro "O Guarani", de imediato lembrou no dia que se esbarrou em Débora e o quanto ela havia sido ignorante. Sorriu para si mesma, era tão engraçado tudo aquilo, por mais que ela buscasse lógica e explicações para o que acontecia em sua vida, não encontrava explicações para situações como aquela.
Sempre imaginou que namoraria ou se apaixonaria por alguém no qual teria uma amizade prévia, de longa data, já que desconfiada o suficiente para confiar em alguém, mas com Débora foi tudo tão diferente.
Entre pensamentos nostálgicos, Carol foi interrompida por seu irmão que a gritava como se estivesse morrendo.
- O que foi? - gritou do seu quarto.
- Estão te chamando lá fora.
- Quem?
- E eu por acaso vou saber
? - falou com ignorância.
Ao sair na porta, Caroline se depara com a diretora. De imediato sentiu um cala frio, pois não tinha ideia do que a diretora da escola poderia querer com ela.
- Caroline, como você está? - perguntou amigavelmente.
- Estou bem - respondeu receosa. - bem e bastante surpresa.
- Imagino, desculpe aparecer assim. É que gostaria de conversar com você. Podemos?
- Claro. - concordou Caroline explicando-se que não poderiam conversar em sua casa.
Márcia então propôs que fossem para algum lugar para conversarem melhor. Carol entrou em casa e avisou seu irmão que mal prestou atenção no que a garota estava dizendo e em seguida saiu.
- Conheço um restaurante aqui perto, está com fome?
Caroline pensou em recusar, mas imaginou do que poderia se tratar o assunto e era sua obrigação conversar com a diretora. Não podia deixar que qualquer coisa fosse apenas responsabilidade de Débora, então aceitou o convite.
Assim que as duas chegaram foram direto para as mesas.
- Acredito que você deve imaginar o porquê estou aqui. - disse Márcia.
- Imagino, mas prefiro que você fale exatamente do assunto que quer tratar comigo.
- Caroline, eu tentei te ajudar. Você sabe disso.
- Sim, eu sei e agradeço por isso, mas eu “tô” bem!
- Não, você não está bem. Tínhamos combinado que você focaria apenas em estudar, foi sua promessa.
- Eu estou estudando. - confrontou Caroline.
- Suas notas não estão nada boas. Acreditei que você teria condições de ganhar a olimpíadas de matemática, tanto que permiti sua viagem com a Débora. E agora você se envolve justamente com ela? Eu penso que... que permiti tudo isso acontecer. Eu sei que você não é uma criança e sabe muito bem das consequências dos seus atos, mas também não sei se posso continuar confiando e acreditando em você, Caroline.
- Eu sei que minhas notas estão ruins, mas eu também sei que posso melhorar. E quanto à Débora, aconteceu. Você sabe como a minha vida estava, ela apareceu e...
- É nesse ponto que queria chegar. - Falou a diretora que continuou sem pensar duas vezes. - Quando te conheci, você era uma menina tão sozinha que precisava muito de alguém para cuidar de você, de carinho que seus pais nunca te deram.
Caroline abaixou a cabeça e só de escutar as palavras de Márcia, lágrimas desceram pelo seu rosto.
- Eu me dispus a te ajudar. Consegui uma vaga aqui na escola, um emprego para seu pai e encontrei essa casa para que vocês pudessem morar. Eu sei que não te acompanhei tão de perto como eu prometi mas eu fiz o que pude e qualquer coisa você sabe que poderia contar comigo. Não sabe? - perguntou delicadamente.
Carol confirmou com a cabeça.
- A professora Débora apareceu em um momento que você estava frágil, carente, precisando de alguém e sei que ela te supriu em todos esses aspectos. - Continuou a mulher - Devo concordar que ela é uma pessoa maravilhosa e digna da sua paixão.
Caroline levantou a cabeça e encarou Márcia.
- Mas você é aluna. Ela é professora ha anos em nossa escola. Sem contar que seu pai não concordaria com isso, me corrija se eu estiver errada.
- É. Ele com certeza não concordaria com nada disso. - falou Carol.
- Eu sei que você é uma menina inteligente, que pensa no seu futuro, que quer se tornar uma mulher independente e te apoio por pensar assim. Mas meu amor... as coisas não estão certas, Débora foi sua primeira paixão e vão surgir outras.
- Não vão, eu quero ficar com ela. Você não entende?
- Calma. – falava de forma serena. - Eu imagino que é isso que você queira, mas infelizmente não vivemos só de amor. Você sabe disso. Use sua razão, pense com a cabeça, Caroline. - repreendeu a diretora.
- Tudo bem. Que tal irmos direto ao ponto? - indagou Carol.
- Eu apenas quero conversar com você.
- Estou vendo que está tentando me convencer o porquê não ficar com Débora, mas quais serão as consequências caso eu ainda queria ficar com ela? Deixar tudo bem claro facilitaria tudo, não é mesmo? - falou Caroline um tanto quanto irônica.
- Eu a demiti. Mas ainda posso voltar atrás.
Caroline a fitou com os olhos. Seu coração acelerava ainda mais.
- Você teria que sair da escola.
Caroline de imediato respondeu.
- Tudo bem. Eu saio - falou mais contente.
- Não é simples assim, Caroline. Se você sair da escola, você vai ter que voltar para sua cidade com seu pai.
Caroline ficou surpresa. Era como se Márcia tivesse a punindo por ter se apaixonado por Débora.
- Se você insistir nesse "relacionamento" a professora Débora vai ser dispensada da escola, provavelmente seus pais logo saberão e eu mesma terei que conversar com eles e de todos os alunos, caso todos fiquem sabendo. Isso não seria bom para ninguém. É isso que você quer?
Caroline engoliu a seco. Não era isso que ela queria. Nunca foi!
- O que você quer?
- Você sabe muito bem o que eu estou te pedindo. Eu concedo férias para ela, você fica até o final do semestre e depois muda de escola, eu posso te ajudar com isso. Você sabe. O que não dá é para achar que esse futuro incêndio irá se apagar do nada e tudo vai ficar bem.
- Às vezes isso parece que é tempestade em copo d'água. - pensou Carol em voz alta.
- Não é. Tenho que me responsabilizar pelo que acontece dentro da escola, professores, pais de alunos e alunos me cobrarão por permitir que uma professora se envolva com uma aluna menor de idade.
- Faltam poucos meses para eu fazer dezoito. - afirmou Caroline.
- Com essa carinha pouco vai importar isso, às vezes tento entender o que você e Débora sentem uma pela outra e é por isso que estou aqui.
- Querendo que não fiquemos juntas? - falou Carol irônica.
- Talvez pareça ruim o que estou te propondo, mas ainda sim é o melhor. Se vocês se amam, não optem pelo pior, tenho certeza que no fundo, bem no fundo tanto você quanto ela sabe que isso tudo não tem como dar certo. Não agora, Caroline.
Caroline ficou pensativa. Encarava Márcia que bebia um copo de água.
-E então? O que vai querer? - perguntou a diretora para Caroline que ainda sim se encontrava com muitas dúvidas.
Se por um lado seu coração dizia que Débora era a pessoa mais incrível que conhecera e que tinham muito para vivenciarem juntas, sua razão falava que a diretora estava certa. Que aquilo tudo poderia acabar antes de virar uma bola de neve e coisas piores acontecessem. Caroline não sabia quem escutar: seu coração ou a razão?
- Preciso pensar. - respondeu séria.


Essa história será disponibilizada até o capítulo 70 aqui no site.
Sendo que ela não terminará no capítulo 70 e sim se transformará em um livro digital que estará disponível até o final do ano de 2018.
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Livro digita (clica aqui)

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